segunda-feira, 17 de março de 2008



Estréia na sexta-feira, dia 21 de março de 2008, no Teatro de Arena de Porto Alegre, a primeira montagem em português do clássico para violão e narrador Platero e Eu.
A obra foi composta em 1960 pelo italiano Mario Castelnuovo-Tedesco, a partir dos poemas em prosa do espanhol Juan Ramón Jiménez. A publicação do livro Platero e Eu, datada de 1914, foi um marco na carreira de Jiménez, popularizando-o mundialmente. Em 1956, ele foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
Gerações encantaram-se com as historietas contadas por um poeta acerca de sua relação de amizade e cumplicidade com um burrico chamado Platero.
O projeto apresentará 11 músicas acompanhadas de narração. O feliz encontro entre literatura, música e teatro faz de Platero e Eu um momento único no campo das artes porto-alegrenses, em um espetáculo delicado, poético e que conta com o público como seu cúmplice ao acompanhar as efemérides cotidianas da vida do pequeno burrico Platero.
Ficha técnica:
Texto: Juan Ramón Jiménez
Narradora: Taís Ferreira
Composição: Mario Castelnuovo-Tedesco
Violonista: Thiago Colombo
Local: Teatro de Arena (Altos do Viaduto da Borges de Medeiros)
Datas: 21 de março a 13 de abril
Hora: sextas e sábados às 20h, domingos às 18h
Ingressos: R$ 12,00 (R$ 6,00 para estudantes, terceira idade, professores e classe artística/ R$ 8,00 para Titular Clube Assinante ZH e acompanhante)
Um grande abraço e esperamos vocês! Taís Ferreira e Thiago Colombo




Um comentário:

Cristiano disse...

Essa é uma crítica do Antônio Hohlfeldt sobre o espetáculo, publicada no Jornal do Comércio em4/4/2008

Poema de Jimenez vira espetáculo

Às vezes duvido que a platéia de Porto Alegre seja uma das melhores do País. Talvez a tevê a esteja tornando ruim. Platero e eu (1914), do poeta espanhol Juan Ramon Jimenez, Prêmio Nobel de 1956, na recriação musical que Maria Castelnuovo-Tedesco lhe fez após sua morte, em 1960, deveria receber mais atenção por parte de nosso público.
Fui assistir ao espetáculo no Teatro de Arena. É uma pequena obra-prima. A forma de recitativo, comum ao tempo de Jimenez, foi devidamente recuperada por Castelnuovo-Tedesco, um dos grandes compositores espanhóis da modernidade, de sorte que temos aqui um duplo poema: o texto do escritor e a pauta do compositor.
Que magnífica iniciativa esta de Taís Ferreira (narradora) e Thiago Colombo (violonista) ao buscarem uma obra, duplamente esquecida, para revelá-la ao público porto-alegrense. Confesso minha ignorância: quando, em janeiro, soube do espetáculo, imaginei uma "adaptação" do texto à cena e tremi. Ao assistir ao trabalho, vi, no programa, uma obra autônoma, reunindo texto e música. Um primor.
A seleção dos capítulos-poemas de Jimenez foi alterada em relação ao texto original. Constrói-se, assim, uma outra narrativa. Taís Ferreira esmera-se em dar certa tonalidade, entre dramática e lúdica, ao texto: foi prejudicada, na noite em que assisti ao trabalho, pela sala que ecoava demasiadamente, pela falta de público. Mas é uma grande intérprete. Tem garra, emoção e convicção. O violonista Thiago Colombo é impecável. Juntos, mais os figurinos de Raquel Cappelletto e a iluminação de Fernando Ochôa, permitiram-nos um momento de suspensão do cotidiano e uma volta à sensibilidade, a um tipo de diálogo hoje quase impossível, em que a gente mergulha em si mesmo, reencontra as simbologias dos animais domésticos que nos acompanhavam (felizmente) e assim nos encontramos a nós mesmos.
O espetáculo não merece qualquer senão. Seu ritmo é permanente e equilibrado. Taís Ferreira encara o espectador, estabelece com ele uma empatia eficiente. Sua emoção passa a cada um. Ao mesmo tempo, dialoga com o musicista e revive o asno Platero, idealizado por Juan Ramon Jimenez.
Platero e eu é desses momentos de exceção para o espetáculo cênico. Nele, tudo está exato e equilibrado. E a gente simplesmente se deixa embalar pelo trabalho. Não sei se existe alguma gravação desta composição (Opus 190), mas em espanhol o texto deve ter ainda maior poesia, porque deve ter valorizado as palavras de Jimenez, que era poeta, aproximando-o da música de Castelnuovo-Tedesco. Recomendo emocionadamente este trabalho impactante. É dos que, quando acabam, a gente lastima.
Parabéns a toda a equipe: primeiro, pela iniciativa. É disso que a cena artística precisa. Criatividade, ousadia, quebra de paradigmas e revelação de obras. É desses espetáculos que nos marcam e se tornam sempre um referencial.